Aniversário
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
[473]
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
A propósito do Aniversário de Pessoa
Naquele dia, naquela mesma hora, aquele velho costume, aquele mesmo, era dia (e fazia sol), havia mesas, cadeiras, copos, um balcão e um alguém do outro lado e alguéns em volta. Eu o vi. Era o poeta – Fernando Pessoa –, estava lá, sentado, olhava o tempo...
Eu me aproximei. E disse: “Fernando Pessoa”, ele me olhou, logo me apresentei. Sabia eu que ele estava no melhor dos dias de seu outro eu, e eu resolvi tirá-lo para psicólogo. “Sou louco...” eu disse. Fernando Pessoa estava feliz, pois ele estava feliz de estarem todos ali, e “ninguém estava morto”. Eu lamentava saber que não pude ser feliz como ele foi ao lado dos seus – por muitos anos. O poeta do eu me falou dos seus dias em família, eu só o invejava, e lamentava por não ter tido dias como os dele.
Em algo nos assemelhamos (eu e ele), “não ter as esperanças que os outros tinham por mim”. Foi isso que me confortou por um instante. A conversa estava afiada. O eu do poeta me olha... me fala... eu choro... e agora eu vou sair procurando... sim, o sentido da vida. Vou também festejar “o dia dos meus anos”. O poeta do eu entende a mim quando eu não entendo a mim mesmo e busca me explicar meu eu que ali naquele momento só tinha vagueza.
E o que eu tenho sido? Deveria ser. O que sou se não tenho o outro (eu?)? dúvida. O eu do poeta me tinha como eu também o poderia ter, mas não fiz por onde ter! ele foi o que eu quero ser (preciso viver para ser). Não posso lamentar a distância desses meus dias de hoje, quero regozijar amanhã por ter sido e feito o grande bem a mim, ao outro e ao outro eu. O tempo, ele me diz, eu ainda o tenho. O poeta do eu me fala, comemora comigo, pois temos as coisas que provocam as alegrias – “doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado”. Descoberta. Temos a vida!
É... não vou me esquecer desse encontro tão fabuloso quanto fantástico. Foi o encontro do poeta do eu, o eu do poeta e eu. Isso não é uma trindade!
Renato César