quinta-feira, 29 de março de 2012

Riso

"Eu naquele rio
O céu não se abriu
Jesus não riu."

Renato César

domingo, 25 de março de 2012

Divagações

Que devaneio é esse
Que fazemos para escrever
Esses tais...
Ins...
            Instituição?
Instituição, não! Ins... Inspira...
                                                      Inspirar
Trazer para dentro, botar para fora e...
                        Sim! Mas, não exatamente
Trazer para si, botar para fora e...
dizer ou escrever ou cantar ou sinalizar...
            Não! Vem de dentro para fora
com uma necessidade imensa de se expressar...
                        Na arte, na literatura, na música...
            Inspiração!
Isso!
                        É verdade!
                                                   É o óbvio!

Renato César

sexta-feira, 23 de março de 2012

Pandorga

Eu fechei os olhos.
Eu vivia arrodeado daquelas fortificações de concreto armado que pareciam ninhos de luxo para humanos, morava em uma casa desconvencional que resistia a uma desabitação virtual, aqueles meus móveis e eletrodomésticos, nunca os havia mudado de lugar, a cada dia de frente para uma TV que sempre sintonizava a mesma nota ruidosa onde só se via a imagem – ou não – turva. Eu me chamava, pois não me chamavam, João sem sobrenome. Eu estava metido naquele universo de pessoas diferentes que tinham suas vidas normais, que tinham suas vidas preocupadas, que tinham suas vidas convencionais, todas andavam na mesma direção rumo a um fim súbito.
Eu desandava por aquelas ruas, tomando seus desvios, entre os ruídos do motor do carro e o som da voz do carro de som e as buzinas que emitiam a mesma nota desafinante e a gente falando de todas as coisas e aquele objeto que usavam para falar a distância tocavam todos ao mesmo tempo uma música diferente – um desconforto encheu meu corpo e alma. No meu descaminho, eu dava naquele banco daquela praça da rua sem número sem nome sem vida, dali desacompanhava a encenação da vida real, vozes, gritos, sussurros, cantos, alto, baixo, médio – era meio-dia.
Eu revoltei para a casa. Abri aquela porta surrada com uma chave que abria a mesma fechadura, abri aquela geladeira que já não gelava, tirei uma garrafa – de refrigerante – de água e enchi o copo, tomei a água que desceu pela minha boca, minha garganta, meu estômago, meu corpo foi tomado pelo líquido, senti que meu corpo se refez, fui para a sala, apertei o botão que fazia acender a TV que insistia em dar a mesma nota e eu resistia – subitamente uma imagem apareceu e um homem apareceu e este homem falou: “Senhor, eu ando”, em seguida, aquele homem despareceu, e aquela imagem desapareceu e a TV se apagou e sua vida acabou.
Do súbito e efêmero momento ficaram aquelas palavras as quais eu repetia a todo tempo, percebi naquela hora que eu tinha voz, eu tinha som, eu tinha músculos para produzir os sons...
Eu desviei os olhos.

Renato César

terça-feira, 6 de março de 2012

Qualquer réquiem

Fernando PESSOA. Qualquer música. In: O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 100.

Qualquer música
Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!


Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...


Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


Qualquer réquiem


Sob a terra; embaixo de uma árvore; e ainda sob uma construção marmórea; campos algo verde ou seco; escrituras em uma lápide de um tal ninguém ou alguém; no bronze a imagem do aquele que é; som! Ainda há tempo para um último requiem, ouço qualquer música.
O corpo não responde mais, fui feito para sentir as sensações em alma da música que me dá alguns momentos de vida, sou o sopro. E neste primeiro momento “que me tire da alma esta incerteza que quer qualquer impossível calma!” – ainda sinto vida quando meu sopro – de vida – se entrecruza os ventos. Embalado pelo meu requiem derradeiro.
A sensação é de ouvir “qualquer música” – ou uma música qualquer? – ah! Não há mais importância quando não se pode mais nem tocar, nem olhar, nem cheirar... apenas ouvir! Instrumentos – “guitarra, viola, harmônio, realejo...” – são aqueles que pedi que os tocassem à hora de meu último suspiro, pois seria nessa hora que a sinergia se desfaria e aí não quero corpo que é fútil, quero a alma por “um canto que se desgarra...” e daí caminhar para a vida, sem vida, sem fim.
Pode ser tudo, mas é “qualquer coisa que não vida!” e assim vai chegando a minha despedida neste outono de folhas secas caídas sobre a terra e elas, ainda vivas, dançam embaladas pelo sopro – ainda vida –, eu faço minha “última dança vivida...” o cortejo já havia passado, agora só havia eu e meu requiem para o além.

Renato César

domingo, 4 de março de 2012

A propósito do Aniversário de Pessoa

Aniversário

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
[473]

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


A propósito do Aniversário de Pessoa


Naquele dia, naquela mesma hora, aquele velho costume, aquele mesmo, era dia (e fazia sol), havia mesas, cadeiras, copos, um balcão e um alguém do outro lado e alguéns em volta. Eu o vi. Era o poeta – Fernando Pessoa –, estava lá, sentado, olhava o tempo...
Eu me aproximei. E disse: “Fernando Pessoa”, ele me olhou, logo me apresentei. Sabia eu que ele estava no melhor dos dias de seu outro eu, e eu resolvi tirá-lo para psicólogo. “Sou louco...” eu disse. Fernando Pessoa estava feliz, pois ele estava feliz de estarem todos ali, e “ninguém estava morto”. Eu lamentava saber que não pude ser feliz como ele foi ao lado dos seus – por muitos anos. O poeta do eu me falou dos seus dias em família, eu só o invejava, e lamentava por não ter tido dias como os dele.
Em algo nos assemelhamos (eu e ele), “não ter as esperanças que os outros tinham por mim”. Foi isso que me confortou por um instante. A conversa estava afiada. O eu do poeta me olha... me fala... eu choro... e agora eu vou sair procurando... sim, o sentido da vida. Vou também festejar “o dia dos meus anos”. O poeta do eu entende a mim quando eu não entendo a mim mesmo e busca me explicar meu eu que ali naquele momento só tinha vagueza.
E o que eu tenho sido? Deveria ser. O que sou se não tenho o outro (eu?)? dúvida. O eu do poeta me tinha como eu também o poderia ter, mas não fiz por onde ter! ele foi o que eu quero ser (preciso viver para ser). Não posso lamentar a distância desses meus dias de hoje, quero regozijar amanhã por ter sido e feito o grande bem a mim, ao outro e ao outro eu. O tempo, ele me diz, eu ainda o tenho. O poeta do eu me fala, comemora comigo, pois temos as coisas que provocam as alegrias – “doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado”. Descoberta. Temos a vida!
É... não vou me esquecer desse encontro tão fabuloso quanto fantástico. Foi o encontro do poeta do eu, o eu do poeta e eu. Isso não é uma trindade!

Renato César