terça-feira, 6 de março de 2012

Qualquer réquiem

Fernando PESSOA. Qualquer música. In: O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 100.

Qualquer música
Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!


Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...


Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


Qualquer réquiem


Sob a terra; embaixo de uma árvore; e ainda sob uma construção marmórea; campos algo verde ou seco; escrituras em uma lápide de um tal ninguém ou alguém; no bronze a imagem do aquele que é; som! Ainda há tempo para um último requiem, ouço qualquer música.
O corpo não responde mais, fui feito para sentir as sensações em alma da música que me dá alguns momentos de vida, sou o sopro. E neste primeiro momento “que me tire da alma esta incerteza que quer qualquer impossível calma!” – ainda sinto vida quando meu sopro – de vida – se entrecruza os ventos. Embalado pelo meu requiem derradeiro.
A sensação é de ouvir “qualquer música” – ou uma música qualquer? – ah! Não há mais importância quando não se pode mais nem tocar, nem olhar, nem cheirar... apenas ouvir! Instrumentos – “guitarra, viola, harmônio, realejo...” – são aqueles que pedi que os tocassem à hora de meu último suspiro, pois seria nessa hora que a sinergia se desfaria e aí não quero corpo que é fútil, quero a alma por “um canto que se desgarra...” e daí caminhar para a vida, sem vida, sem fim.
Pode ser tudo, mas é “qualquer coisa que não vida!” e assim vai chegando a minha despedida neste outono de folhas secas caídas sobre a terra e elas, ainda vivas, dançam embaladas pelo sopro – ainda vida –, eu faço minha “última dança vivida...” o cortejo já havia passado, agora só havia eu e meu requiem para o além.

Renato César

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