Fernando PESSOA. Qualquer música. In: O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 100.
Qualquer música
Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!
Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...
Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!
Qualquer réquiem
Sob a terra; embaixo de uma árvore; e ainda sob uma construção marmórea; campos algo verde ou seco; escrituras em uma lápide de um tal ninguém ou alguém; no bronze a imagem do aquele que é; som! Ainda há tempo para um último requiem, ouço qualquer música.
O corpo não responde mais, fui feito para sentir as sensações em alma da música que me dá alguns momentos de vida, sou o sopro. E neste primeiro momento “que me tire da alma esta incerteza que quer qualquer impossível calma!” – ainda sinto vida quando meu sopro – de vida – se entrecruza os ventos. Embalado pelo meu requiem derradeiro.
A sensação é de ouvir “qualquer música” – ou uma música qualquer? – ah! Não há mais importância quando não se pode mais nem tocar, nem olhar, nem cheirar... apenas ouvir! Instrumentos – “guitarra, viola, harmônio, realejo...” – são aqueles que pedi que os tocassem à hora de meu último suspiro, pois seria nessa hora que a sinergia se desfaria e aí não quero corpo que é fútil, quero a alma por “um canto que se desgarra...” e daí caminhar para a vida, sem vida, sem fim.
Pode ser tudo, mas é “qualquer coisa que não vida!” e assim vai chegando a minha despedida neste outono de folhas secas caídas sobre a terra e elas, ainda vivas, dançam embaladas pelo sopro – ainda vida –, eu faço minha “última dança vivida...” o cortejo já havia passado, agora só havia eu e meu requiem para o além.
Renato César
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