sexta-feira, 7 de setembro de 2012

DO NONSENSE DA TELEVISÃO



É inegável que os meios de comunicação – jornal impresso, rádio, televisão e, hoje, Internet – desempenham um papel importante na sociedade. É por meio desses canais de informação que temos acesso às notícias do esporte, da política, da sociedade em geral, e quando se diz geral é geral mesmo. Porém, seria mesmo inteligente da parte do leitor do jornal, do ouvinte do rádio, do telespectador e do internauta confiar em toda sorte de informação transmitida pelos diversos meios sem que eles tivessem feito antes uma reflexão sobre sua forma de organização, sobre a sua filosofia e posição social e política, enfim, sobre suas tessituras e retalhos informacionais? No atual contexto social, sendo a televisão, ainda hoje, o meio de comunicação mais usado pela população, questiona-se: qual é o seu papel na sociedade?
Quando se pensa em meios de comunicação o que vem a nossa cabeça é sua função informativa, mas quando se pensa a televisão como meio de comunicação as concepções se distorcem, e até mesmo, se confundem. A começar por seus administradores, que, defendem este ou aquele ponto de vista, esta ou aquela posição partidária, ou seja, a informação é sempre contada pela metade, aliás, ela é às vezes omitida. Nos anos idos da ditadura um certo canal televisivo se associou aos anseios dos militares, os apoiando, afinal, ninguém estava louco a ponto de desafiá-los, o papel dessa televisão era manter a sociedade calada, usando a alienação como meio de controle social.
Vencida a ditadura a televisão ganhou uma tal liberdade que extrapola os limites, chegando a assumir uma tal libertinagem que ascende os degraus do nonsense. No final dos anos 80 o rock nacional despontava e despertava a rebeldia (a boa rebeldia) juvenil, falando em rock, um dos momentos bizarros e irônicos da TV se deu no Cassino do Chacrinha quando Os Titãs interpretaram a música “Televisão”. Pergunta-se: “a ironia estava no fato de a banda estar criticando a televisão em um programa de TV ou de a televisão estar tirando sarro de seus telespectadores ‘burros’?” Questão sem resposta. Chega-se aos 90 e o papel alienador dos meios de comunicação continua, agora a população estava segurando o tchan e descendo na boquinha da garrafa, enquanto um político é cassado e sofre impeachment, este político que, aliás, tinha um sistema de televisão a seu favor. Nos nossos dias assistimos, como outrora, a máxima de Rousseau de que “o homem nasce bom e feliz, mas a sociedade o corrompe” – televisão corrompe a sociedade.
Assistimos hoje a assunção do quarto poder e do nonsense já interpretado pelo teatro do absurdo – déjà vu? A televisão informa para seus telespectadores que eles precisam dela, haja visto a casa que ela reforma, a viagem de volta à terra natal que ela promove, o namorado ou a namorada que ela arruma... Não importa se aqueles que se submetem aos programas televisivos sejam envolvidos em situações de total desconforto e constrangimento. Além de todos estes benefícios que a TV promove aos telespectadores, ela faz de anônimos celebridades, vale dizer, pessoas que não têm um mínimo de senso crítico sobre seu papel na sociedade, e nós já fomos mais inteligentes (Carlos Nascimento).
Diante deste show de horrores, da vida posta a mostra, da exposição ao ridículo, da falta do senso crítico negado à sociedade, a Internet aparece como meio de comunicação da livre expressão, onde todas as vozes podem ser ouvidas, onde as opiniões não são castradas. Seria a Internet o meio de contestação da sociedade pós-moderna? Tem-se com ela a liberdade de crítica e formação de pensamento ativo, porém, resta-se perguntar até quando.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Je pense donc je suis*

J'écoute donc j'existe
Je parle donc j'existe
Je lis donc j'existe
J'écris donc j'existe
Réfléchissez
"Je pense donc je suis"

* Merci, René DESCARTES.

Renato César

domingo, 3 de junho de 2012

Mundo acabado


Quando cheguei ao mundo fiquei bestificado como tudo era tão no seu lugar, tudo era tão metrificado, milimetricamente planejado para aquelas pessoas de movimento, até os animais eram perfeitamente envolvidos no metro. Formas redondas, quadradas, cúbicas, angulares, alinhadas etc. Fisicamente tinham todos números para todos, até psicologicamente a medida era certa, o som, o cheiro, a voz, a palavra, a imagem etc.
Visto, logo sou, olho, logo quero, penso, logo não posso mais dizer o que estou pensando. Ter é ser, o ser foi bem esquecido.
Um dia, andando por aí, coloquei uma camisa milimetricamente tendo forma de tórax, entrando nos braços encaixando-se certamente, as calças subiram de modo que entrou nas minhas duas pernas sem sobrar perna e ainda coloquei o cinto que depois virou uma convenção da sociedade para se tornar mais elegante, envolto a cintura. Os pés levavam uma meia que amaciava, e na verdade nem precisava, para recepcionar os tênis que entram juntamente com os cadarços para fixar e segurar nos pés. Em cima a frente dos olhos coloquei os óculos com suas duas lentes que melhoram o olhar, mas não nos melhora, e sua haste encaixava por cima das orelhas onde os buracos recebiam os fones de ouvido que trazia um heavy metal pesado, som vindo diretamente digital de um cartão de memória amnésica lido pelo celular ultrapassado de outra geração.
Deste modo vestido fui enfrentar um mundo praticamente inacabado teoricamente acabado. Este mundo não se encontra com o meu, meu caráter é outro.

Renato César

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Solitude à l'impériale


Dans le royaume vide de gens
Le vent, en soufflant, croise le hall à sifflements
Au centre, un chevalier contemple sa parfaite tristesse
Son visage a l’air d’une merveilleuse solitude
Une pierre d’or – orgueil des faibles égoïstes
Le pouvoir dans la main ; le vide livide dans le cœur
Sur ses vaines, court l’amour misérable des riches
Au coin, une place réservée à la belle femme
      lui est impossible d’avoir son amour
Le vieux temps passe si vite tel qu’un escargot
La belle vie de ce bon homme est en train
de monter aux cieux ou de descendre aux enfers
C’est la fin, un chevalier solitaire sans amour
qui finit par devenir un ange ou un diable.

Renato César

segunda-feira, 21 de maio de 2012

sábado, 5 de maio de 2012

Loucura inventada


Campo descampado ao longe
Um monte: fogo
Casa cabana palha
Espada forjada – sagrada
Um coração de uma dama
Lutando digo
“tenho um coração na mão
matei o dragão”
Harpias águias gárgulas
Fugir mundo funesto
Paraíso grama verde
Um olhar um sorriso
No fim um beijo.

Renato César

domingo, 22 de abril de 2012

Vestida


Olha o nada
com os olhos de quem
não quer ver
echarpe
vestido branco bordado rodado
meia branca longa rendada
sapatilhas brancas pequenas rasteira
Um ser desejoso de
não ter vida – um manequim.


Renato César.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Nos mots ne sont pas à nous

Quand je parle, je parle de toi
Et toi, oui, toi! tu parles de moi
Quand je parle d'amour
Ce n'est pas moi qui parle
C'est mon cœur qui parle
Il parle de toi et de moi

Renato César

domingo, 15 de abril de 2012

Verso

Eu verso um verso
Este controverso
Uma prosa leprosa
Suja! Como se ousa?

Teço um terceto
Um falso quarteto
Incrível hepteto
Mais um pretexto

Na linha nove nada
Na rua dez meus pés
Uma estrofe para cada
Uma das doze ralés

Renato César

segunda-feira, 2 de abril de 2012

quinta-feira, 29 de março de 2012

domingo, 25 de março de 2012

Divagações

Que devaneio é esse
Que fazemos para escrever
Esses tais...
Ins...
            Instituição?
Instituição, não! Ins... Inspira...
                                                      Inspirar
Trazer para dentro, botar para fora e...
                        Sim! Mas, não exatamente
Trazer para si, botar para fora e...
dizer ou escrever ou cantar ou sinalizar...
            Não! Vem de dentro para fora
com uma necessidade imensa de se expressar...
                        Na arte, na literatura, na música...
            Inspiração!
Isso!
                        É verdade!
                                                   É o óbvio!

Renato César

sexta-feira, 23 de março de 2012

Pandorga

Eu fechei os olhos.
Eu vivia arrodeado daquelas fortificações de concreto armado que pareciam ninhos de luxo para humanos, morava em uma casa desconvencional que resistia a uma desabitação virtual, aqueles meus móveis e eletrodomésticos, nunca os havia mudado de lugar, a cada dia de frente para uma TV que sempre sintonizava a mesma nota ruidosa onde só se via a imagem – ou não – turva. Eu me chamava, pois não me chamavam, João sem sobrenome. Eu estava metido naquele universo de pessoas diferentes que tinham suas vidas normais, que tinham suas vidas preocupadas, que tinham suas vidas convencionais, todas andavam na mesma direção rumo a um fim súbito.
Eu desandava por aquelas ruas, tomando seus desvios, entre os ruídos do motor do carro e o som da voz do carro de som e as buzinas que emitiam a mesma nota desafinante e a gente falando de todas as coisas e aquele objeto que usavam para falar a distância tocavam todos ao mesmo tempo uma música diferente – um desconforto encheu meu corpo e alma. No meu descaminho, eu dava naquele banco daquela praça da rua sem número sem nome sem vida, dali desacompanhava a encenação da vida real, vozes, gritos, sussurros, cantos, alto, baixo, médio – era meio-dia.
Eu revoltei para a casa. Abri aquela porta surrada com uma chave que abria a mesma fechadura, abri aquela geladeira que já não gelava, tirei uma garrafa – de refrigerante – de água e enchi o copo, tomei a água que desceu pela minha boca, minha garganta, meu estômago, meu corpo foi tomado pelo líquido, senti que meu corpo se refez, fui para a sala, apertei o botão que fazia acender a TV que insistia em dar a mesma nota e eu resistia – subitamente uma imagem apareceu e um homem apareceu e este homem falou: “Senhor, eu ando”, em seguida, aquele homem despareceu, e aquela imagem desapareceu e a TV se apagou e sua vida acabou.
Do súbito e efêmero momento ficaram aquelas palavras as quais eu repetia a todo tempo, percebi naquela hora que eu tinha voz, eu tinha som, eu tinha músculos para produzir os sons...
Eu desviei os olhos.

Renato César

terça-feira, 6 de março de 2012

Qualquer réquiem

Fernando PESSOA. Qualquer música. In: O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 100.

Qualquer música
Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!


Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...


Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


Qualquer réquiem


Sob a terra; embaixo de uma árvore; e ainda sob uma construção marmórea; campos algo verde ou seco; escrituras em uma lápide de um tal ninguém ou alguém; no bronze a imagem do aquele que é; som! Ainda há tempo para um último requiem, ouço qualquer música.
O corpo não responde mais, fui feito para sentir as sensações em alma da música que me dá alguns momentos de vida, sou o sopro. E neste primeiro momento “que me tire da alma esta incerteza que quer qualquer impossível calma!” – ainda sinto vida quando meu sopro – de vida – se entrecruza os ventos. Embalado pelo meu requiem derradeiro.
A sensação é de ouvir “qualquer música” – ou uma música qualquer? – ah! Não há mais importância quando não se pode mais nem tocar, nem olhar, nem cheirar... apenas ouvir! Instrumentos – “guitarra, viola, harmônio, realejo...” – são aqueles que pedi que os tocassem à hora de meu último suspiro, pois seria nessa hora que a sinergia se desfaria e aí não quero corpo que é fútil, quero a alma por “um canto que se desgarra...” e daí caminhar para a vida, sem vida, sem fim.
Pode ser tudo, mas é “qualquer coisa que não vida!” e assim vai chegando a minha despedida neste outono de folhas secas caídas sobre a terra e elas, ainda vivas, dançam embaladas pelo sopro – ainda vida –, eu faço minha “última dança vivida...” o cortejo já havia passado, agora só havia eu e meu requiem para o além.

Renato César

domingo, 4 de março de 2012

A propósito do Aniversário de Pessoa

Aniversário

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
[473]

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


A propósito do Aniversário de Pessoa


Naquele dia, naquela mesma hora, aquele velho costume, aquele mesmo, era dia (e fazia sol), havia mesas, cadeiras, copos, um balcão e um alguém do outro lado e alguéns em volta. Eu o vi. Era o poeta – Fernando Pessoa –, estava lá, sentado, olhava o tempo...
Eu me aproximei. E disse: “Fernando Pessoa”, ele me olhou, logo me apresentei. Sabia eu que ele estava no melhor dos dias de seu outro eu, e eu resolvi tirá-lo para psicólogo. “Sou louco...” eu disse. Fernando Pessoa estava feliz, pois ele estava feliz de estarem todos ali, e “ninguém estava morto”. Eu lamentava saber que não pude ser feliz como ele foi ao lado dos seus – por muitos anos. O poeta do eu me falou dos seus dias em família, eu só o invejava, e lamentava por não ter tido dias como os dele.
Em algo nos assemelhamos (eu e ele), “não ter as esperanças que os outros tinham por mim”. Foi isso que me confortou por um instante. A conversa estava afiada. O eu do poeta me olha... me fala... eu choro... e agora eu vou sair procurando... sim, o sentido da vida. Vou também festejar “o dia dos meus anos”. O poeta do eu entende a mim quando eu não entendo a mim mesmo e busca me explicar meu eu que ali naquele momento só tinha vagueza.
E o que eu tenho sido? Deveria ser. O que sou se não tenho o outro (eu?)? dúvida. O eu do poeta me tinha como eu também o poderia ter, mas não fiz por onde ter! ele foi o que eu quero ser (preciso viver para ser). Não posso lamentar a distância desses meus dias de hoje, quero regozijar amanhã por ter sido e feito o grande bem a mim, ao outro e ao outro eu. O tempo, ele me diz, eu ainda o tenho. O poeta do eu me fala, comemora comigo, pois temos as coisas que provocam as alegrias – “doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado”. Descoberta. Temos a vida!
É... não vou me esquecer desse encontro tão fabuloso quanto fantástico. Foi o encontro do poeta do eu, o eu do poeta e eu. Isso não é uma trindade!

Renato César