sexta-feira, 23 de março de 2012

Pandorga

Eu fechei os olhos.
Eu vivia arrodeado daquelas fortificações de concreto armado que pareciam ninhos de luxo para humanos, morava em uma casa desconvencional que resistia a uma desabitação virtual, aqueles meus móveis e eletrodomésticos, nunca os havia mudado de lugar, a cada dia de frente para uma TV que sempre sintonizava a mesma nota ruidosa onde só se via a imagem – ou não – turva. Eu me chamava, pois não me chamavam, João sem sobrenome. Eu estava metido naquele universo de pessoas diferentes que tinham suas vidas normais, que tinham suas vidas preocupadas, que tinham suas vidas convencionais, todas andavam na mesma direção rumo a um fim súbito.
Eu desandava por aquelas ruas, tomando seus desvios, entre os ruídos do motor do carro e o som da voz do carro de som e as buzinas que emitiam a mesma nota desafinante e a gente falando de todas as coisas e aquele objeto que usavam para falar a distância tocavam todos ao mesmo tempo uma música diferente – um desconforto encheu meu corpo e alma. No meu descaminho, eu dava naquele banco daquela praça da rua sem número sem nome sem vida, dali desacompanhava a encenação da vida real, vozes, gritos, sussurros, cantos, alto, baixo, médio – era meio-dia.
Eu revoltei para a casa. Abri aquela porta surrada com uma chave que abria a mesma fechadura, abri aquela geladeira que já não gelava, tirei uma garrafa – de refrigerante – de água e enchi o copo, tomei a água que desceu pela minha boca, minha garganta, meu estômago, meu corpo foi tomado pelo líquido, senti que meu corpo se refez, fui para a sala, apertei o botão que fazia acender a TV que insistia em dar a mesma nota e eu resistia – subitamente uma imagem apareceu e um homem apareceu e este homem falou: “Senhor, eu ando”, em seguida, aquele homem despareceu, e aquela imagem desapareceu e a TV se apagou e sua vida acabou.
Do súbito e efêmero momento ficaram aquelas palavras as quais eu repetia a todo tempo, percebi naquela hora que eu tinha voz, eu tinha som, eu tinha músculos para produzir os sons...
Eu desviei os olhos.

Renato César

3 comentários:

  1. ...e então o renascimento aconteceu!
    Renato, este é um texto que me faz pensar em esperança, e que em certos momentos da vida tudo se transforma subitamente para nos lembrar que temos que acreditar em nossos sonhos e seguir em frente com os nossos objetivos. E, assim como a Fênix é capaz de renascer, nós também podemos morrer e renascer várias vezes para alcançar aquilo que desejamos. Parabéns pelo texto, um forte abraço,
    Cléia

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    1. Revisitando este bloque aqui em 2021, Cléia ! Que belo comentário! Obrigado pelas palavras!

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  2. Revisitando este bloque aqui em 2021, Cléia ! Que belo comentário! Obrigado pelas palavras!

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